A Aurora sempre foi intensa. Latia alto, corria sem parar, cutucava qualquer pet que aparecesse pela frente. E ela tem uma característica que a gente logo notou: mesmo para uma salsicha, ela é particularmente comprida e baixa. Como se a genética tivesse exagerado no comprimento e economizado nas patas.
Por anos, isso não foi problema nenhum. Morávamos em uma casa térrea, ela tinha acesso ao quintal, subia no máximo três degraus para entrar na cozinha — que ela adorava, como todo bom salsicha. A vida dela era no chão, sem grandes exigências para a coluna.
Então a gente comprou um apartamento.
Ninguém me avisou que essa mudança seria um risco para ela. Eu não sabia. Não sabia que Dachshunds têm uma predisposição genética altíssima para IVDD — a doença do disco intervertebral. Não sabia como carregá-la corretamente. Colocava ela pra pular, segurava ela de qualquer jeito para descer do colo, deixava ela dar trancos nas brincadeiras. Era tudo com amor. E tudo, ao mesmo tempo, estava machucando ela.
A Aurora raramente demonstrava dor. Esse é um detalhe importante sobre essa raça: eles são discretos. Você pode achar que está tudo bem porque ela não está chorando — e não está bem.
Mas dois momentos ficaram gravados na minha memória. O primeiro foi em um encontro com outro pet. Ela foi cutucar, girar, e quando virou para correr deu um granido alto e fino — aquele som que corta — e parou. Ficou olhando em direção ao próprio rabo, parada. Eu achei que tinha sido o encontrão com o outro cachorro. Continuamos o dia.
O segundo foi na cama. Ela dorme comigo e com minha esposa em uma cama queen. Uma noite, ao puxar o cobertor, ela rolou. Tentou se equilibrar, forçou a coluna, e deu aquele mesmo granido. Deitou e ficou quieta.
Depois disso, ela parou de querer subir escadas. Parou de querer descer do sofá sozinha. As correrias foram dando lugar a uma postura que hoje eu reconheço imediatamente: ela abaixava a parte da frente quase como ioga, alongando a coluna. Vinha acompanhada de resmungos constantes, aqueles sons baixos que um Dachshund faz quando algo não está certo.
Tivemos sorte dentro do azar. Nossa veterinária, a Dra. Micheli — que acompanha a Aurora há anos e é praticamente parte da família — tinha se especializado em coluna e acupuntura veterinária. Ela olhou para a Aurora e soube.
Depois de ressonância magnética e raio-X, o diagnóstico veio: discopatia e cervicalgia.
Eu não sabia o que significava. Fui aprender.
Se você chegou aqui e esta preocupado porque seu salsicha está com sinais parecidos, continue lendo. No próximo artigo conto o que o diagnóstico revelou e o que mudou na nossa rotina a partir daí.
